A íntegra da Carta de Yunes; sem dado novo no vazamento sobre MO

Por Reinaldo Azevedo

Na carta endereçada a Michel Temer, em que se demite da função de assessor da Presidência, José Yunes expõe a tensão destes tempos. Amigo do agora presidente há 50 anos, ele se diz indignado com as acusações que atingem o seu nome e nega ter tido contato com Cláudio Melo Filho, ex-diretor da Odebrecht.

Ele toma essa decisão quando um novo vazamento dá conta de que Marcelo Odebrecht, em seu depoimento, reafirmou ter havido o jantar no Palácio do Jaburu, no qual Temer, então vice-presidente, teria pedido uma doação ao PMDB. O presidente nunca negou a existência do jantar, mas diz que a doação ao partido foi devidamente registrada. Não se conhecem detalhes do depoimento do ex-comandante do grupo Odebrecht nem se sabe se ele referendou outras acusações de Melo Filho, segundo quem o dinheiro foi repassado em espécie, com parcelas sendo enviadas ao próprio Yunes, a Eliseu Padilha e a Eduardo Cunha.

Eis a questão. A rigor, a informação de hoje sobre o depoimento de Marcelo Odebrecht nada acrescenta àquilo que já se sabia, mas é o suficiente para elevar, de novo, a tensão ao máximo.

Abaixo, a imagem da carta — carta mesmo, não e-mail — de Yunes a Temer e, em seguida, a transcrição.

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Caro Presidente,
Movido pelo alto interesse em dedicar meu tempo à causa da Nação, depois de ter vivido fértil passagem pela vida político­partidária, nas jornadas cívicas das décadas de 70/80, aceitei convite de Vossa Excelência para assessorá-­lo no Planalto, oportunidade em que passei a conviver com experientes e altos quadros do seu governo.

Seria uma honra ajudar o amigo de 50 anos a colocar o país nos trilhos, após a hecatombe que arrasou a economia, proporcionando a maior recessão de toda a nossa história, jogando milhões de pessoas nas ondas perversas do desemprego, minando a confiança de brasileiras e brasileiros de todas as classes em governantes e instituições.

Nos últimos dias, Senhor Presidente, vi meu nome jogado no lamaçal de uma abjeta delação, feita por uma pessoa que não conheço, com quem nunca travei o mínimo relacionamento e cuja existência passei a tomar conhecimento, nos meios de comunicação, baseada em fantasiosa alegação, pela qual teria eu recebido parcela de recursos financeiros em espécie de uma doação destinada ao PMDB.

Repilo com a força de minha indignação essa ignominiosa versão. Como advogado e pai de família, que zela pelo dever de agir como cidadão sob os valores da honra e do zelo pela expressão da verdade, em respeito à minha família, aos amigos e aos concidadãos, não posso ver meu nome enxovalhado por irresponsáveis denúncias de figurantes com quem nunca tive qualquer contato direto ou por terceiros.

Para preservar minha dignidade e manter acesa a chama cívica que me faz acreditar nos imensos potenciais de meu país, declino, Senhor Presidente, do honroso cargo de assessor da Presidência, sem, porém, abdicar da admiração e da amizade que nos une desde os heroicos tempos nas Arcadas do Largo de São Francisco.

Tenha em mim o leal amigo que o acompanha há décadas e que o admira por suas incomparáveis qualidades, entre as quais, o equilíbrio, a capacidade de harmonizar os contrários, a sapiência, o respeito pelo outro, a determinação de fazer as grandes reformas que o país exige e a vontade férrea de pacificar a Nação.

São Paulo, 14 de dezembro de 2016

José Yunes

Advogado

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/a-integra-da-carta-de-yunes-sem-dado-novo-no-vazamento-sobre-mo/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+ReinaldoAzevedo+%28Reinaldo+Azevedo%29