Casos de violência doméstica aumentam no RN; ‘desmaiei de tanta dor’, diz mulher que teve o couro cabeludo arrancado à faca

Dona de casa ainda se recupera da agressão que sofreu. Ela teve quase que a metade de todo o couro cabeludo arrancado à faca — Foto: Ediana Miralha/Inter TV Cabugi

“Ele me tirou de casa à força, me puxou pelo braço e me levou para o mato. Eu não queria falar com ele. Levei um soco no olho e ele mandou eu abaixar a cabeça. Eu não queria, mas ele me pegou pelo braço e me forçou. Então, com uma faca, ele cortou meu couro cabeludo. Eu achava que iria morrer, chorava bastante. Implorei para ele não fazer aquilo comigo, mas ele não deu ouvidos. Desmaiei de tanto sangue, de tanta dor. Depois, não lembro mais de nada”.

As palavras acima foram difíceis de falar. Houve pausa, silêncio, lágrimas. Houve indignação, revolta e medo… muito medo. O nome ela prefere não revelar, mas a dor vem com detalhes. São de uma jovem dona de casa de 24 anos. Os últimos 9 foram ao lado dele, do agressor, e boa parte vivida em meio à violência doméstica – uma violência que preocupa cada vez mais.

No Rio Grande do Norte, apesar de os casos de assassinatos de mulheres mostrarem uma redução de 37,5% nos últimos dois anos (veja mais números abaixo), os números de denúncias de ameaças e agressões físicas registrados pela Coordenadoria de Defesa das Mulheres e das Minorias (Codimm) – órgão vinculado à Secretaria de Segurança e Defesa Social (Sesed) aumentaram 5,4% neste mesmo período.

O escalpelamento

O escalpelamento aconteceu no dia 25 de janeiro, na zona rural de Ceará-Mirim, cidade da Grande Natal. Segundo a jovem, inconformado com o fim da relação, o companheiro da vítima invadiu a casa onde ela estava, junto com familiares, e a arrastou pelo braço para dentro de um matagal. Lá, com uma faca, o homem arrancou o couro cabeludo da mulher. De tanta dor, ela diz ter desmaiado, e só lembra de já ter acordado no hospital. O agressor foi preso poucos dias depois, e deve ser indiciado por tentativa de feminicídio.

A dona de casa ainda se recupera. Sem metade do couro cabeludo, ela precisou passar por cirurgia. Pele de uma das coxas foi retirada pra fazer enxerto. Foram 24 dias internada, dois deles na UTI. E ela sabe que o cabelo arrancado não vai mais crescer.

“Depois que eu disse para ele que não dava mais certo a gente ficar juntos, eu já comecei a me esconder na casa de parentes. O medo de morrer era grande. Até que ele me achou. Eu gostava bastante do meu cabelo, mas ainda não parei para pensar como vai ser sem ele. Dói bastante. Não consigo nem falar”, disse ela.

Mas, ainda segundo a própria jovem, a falta do cabelo é o de menos. A preocupação dela é com o futuro, em se manter viva, e com a família. “O mais importante é que eu tô viva e tenho meus filhos ao meu lado. Só os meus filhos me dão força de vencer e de ser uma outra mulher. Tenho vontade de ir para longe e de começar outra vida, mas não tenho condições”, acrescentou.

Ainda sobre o ex-companheiro, a jovem contou à polícia que ele chegava em casa quase sempre agressivo e que batia nela. “Ele bebia e usava drogas. Muitas vezes me batia na frente das crianças. Eu não gostava mais dele. Dei queixa dele, mas ele não foi preso. Agora, vivo com medo de soltarem ele e ele me procurar e me matar. Ele disse que onde eu estiver vai me achar e me matar aos poucos. Não me sinto segura com a medida protetiva. Isso não vai manter ele longe de mim. Ele não respeita nada”, disse.

Fonte: https://g1.globo.com