Operador de Bendine pagou PMDB para garantir unidade pró-Dilma em 2014, diz delator

O executivo da holding J&F, Ricardo Saud , durante depoimento à Polícia Federal (Foto: Reprodução/YouTube)
O EXECUTIVO DA HOLDING J&F, RICARDO SAUD, DURANTE DEPOIMENTO (FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE)

Preso nesta quinta-feira (27) na nova fase da Operação Lava-JatoAndré Gustavo Vieira era mais do que um operador de valores para Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras. Em acordo de colaboração premiada assinado com a Procuradoria-Geral da República (PGR), o executivo do grupo J&F Ricardo Saud contou que Vieira foi o principal operador de dinheiro vivo da operação destinada a unidade do PMDB em torno para a campanha pela reeleição de Dilma Rousseff, em 2014.

or meio de seu esquema de lavagem de dinheiro, R$ 6,1 milhões teriam sido entregues em espécie a senadores do partido, entre eles o atual presidente do Senado Federal Eunício Oliveira (PMDB-CE). Segundo o executivo da J&F, Eunício teria recebido das mãos de Vieria R$ 318 mil, parte de uma propina de R$ 6 milhões endereçada ao senador pelo executivo da J&F.

Ainda de acordo com Saud, a empresa recorreu a Vieira para entregar R$ 1 milhão em dinheiro ao então senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), parte de uma propina de R$ 6 milhões; R$ 980,6 mil de R$ 8,9 milhões endereçados ao senador Jader Barbalho (PMDB-PA); e R$ 3,8 milhões de uma propina de R$ 9,9 milhões para o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Estes valores teriam sido repassados por meio de um intermediário identificado como Durval Rodrigues.

Os pagamentos são parte de um pacote de R$ 35 milhões de crédito que o PT tinha com o Grupo J&F, distribuído aos principais líderes do PMDB do Senado, por orientação do então ministro da Fazenda Guido Mantega, de acordo com os delatores.

“Esse direcionamento tinha a finalidade de assegurar a unidade do PMDB, que apresentava, ao tempo, risco real de fratura, com a perspectiva de parte do partido passar a apoiar formalmente Aécio Neves, tendência que era palpável no período anterior à campanha”, escreveu Saud em anexo de colaboração premiada homologado pelo STF.

Todos os acusados negam ter recebido dinheiro de Vieira.

Quebras de sigilo fiscal e buscas da Lava-Jato identificaram um pagamento de R$ 2,169 milhões da J&F Investimentos, em 2015, à empresa MP Marketing, empresa de fachada ligada aos irmãos Vieira. Nos últimos 10 anos, entre 2006 e 2016, a empresa não teve um único funcionário.

Saud relatou em sua delação que a empresa ligada a Vieira, a Arcos Propaganda, foi apresentada à J&F por meio do ex-ministro Fernando Bezerra (PSB), político de Pernambuco, terra natal da empresa de Vieira. Segundo o delator, o operador teria feito repasses em espécie de R$ 2 milhões para Bezerra; mais R$ 200 mil para o atual ministro das Cidades Bruno Araújo (PSDB) e R$ 1 milhão para o atual governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB).

Segundo dados da Receita Federal, anexados à investigação, André Vieira é sócio em 10 empresas e aparece vinculado indiretamente a outras 47.

Conselheiro

O publicitário foi o responsável pelas duas últimas campanhas do Partido Social Democrata de Portugal (2011 e 2015) lideradas por Pedro Passos Coelho, que foi primeiro-ministro de Portugal entre 2011 e 2015 e preside o partido. Vieira teria atuado ainda como conselheiro de marketing do político português.

Segundo o jornal português Público, Vieira tinha apenas uma empresa em Lisboa, aberta em 2013, do ramo imobiliário. Miguel Relvas, ministro do governo português entre 2003 e 2012, teria morado num imóvel alugado de Vieira. A ligação do publicitário com o PSD teria começado há 20 anos, quando conheceu o ex-presidente do partido Luís Filipe Menezes.

Empresa de fachada

Quando prestou depoimento à Lava-Jato, André Vieira disse ter recebido R$ 3 milhões da Odebrecht por um serviço de consultoria prestado pela MP Marketing para a Odebrecht Ambiental e que foi a empresa que insistiu para fazer os pagamentos em espécie. Agora, a Lava-Jato concluiu que a MP é uma empresa de fachada – de 2006 a 2016 a empresa não teve um único funcionário.

Os impostos sobre o valor foram pagos apenas em março e abril deste ano — ou seja, dois anos após os recebimentos dos “serviços” e somente após o início das investigações.

“O relato de André Gustavo Vieira da Silva não guarda correspondência com os depoimentos dos colaboradores e com o fato do pagamento ter sido efetuado pelo Setor de Propinas da Odebrecht. Fosse negócio regular, de se esperar o pagamento pela Odebrecht pelas vias usuais (..)”, disse Moro em despacho que autorizou a operação desta quinta-feira e decretou a prisão temporária de Bendine e Vieira, além do irmão deste último.

Moro afirmou que os serviços de consultoria não foram descritos e que faltou esclarecimento do destino dos valores recebidos.

O juiz autorizou buscas numa empresa de informática que oferece servidor remoto (nuvem) para a Arcos Propaganda, em busca de mais provas. A empresa fica em Porto Alegre (RS).

Outro lado

Em nota, o senador Eunício Oliveira afirmou que não conhece Gustavo Vieira e jamais ouvira falar na Arcos Propaganda ou em quaisquer agências ligadas ao operador. Quanto às alegações do executivo Ricardo Saud, o senador disse que são falsas e que “não se fazem acompanhar sequer de indícios mínimos de provas, ao menos no que tange ao senador Eunício Oliveira, as respostas estão sendo dadas no curso das ações judiciais”.

O senador Jader Barbalho (PMDB-PA) nega as acusações. Barbalho disse que não conhece e nem nunca ouviu falar de Vieira. O senador ainda fez críticas ao depoimento prestado por Saud em delação premiada e sobre as declarações do colaborador de que o senador teria recebido recursos por meio de Vieira:

“Nunca negociei, nem recebi um centavo desses bandidos da JBS. Nunca tive nenhum entendimento com ele (Saud). E agora sou surpreendido. Também nunca ouvi falar da empresa ( Arcos Propaganda) desse cidadão”, disse Barbalho. “Ele (Saud) falou isso para reduzir sua pena e para ser liberado com uma tornozeleira eletrônica.”

O senador Renan Calheiros afirma que não conhece, nunca falou ou encontrou André Vieira. Ele ainda ressaltou que “é zero a chance de ter recebido qualquer quantia operada por ele (Vieira) ou por sua empresa”. O senador esclarece que jamais recebeu caixa 2 e que todas as doações estão devidamente declaradas e registradas.

A defesa do senador Fernando Bezerra Coelho refutou com veemência o que chamou de “inverídicas afirmações feitas por Ricardo Saud em relação ao senador”. A defesa do senador reforça que todas as doações feitas à campanha dele cumpriram rigorosamente a legislação e todas as contas foram devidamente apresentadas e aprovadas pela Justiça Eleitoral.

Em nota, a defesa de Paulo Câmara disse repudiar a “a exploração política do depoimento do delator Ricardo Saud” que, segundo ele, “não corresponde à verdade”.

“Não recebi doação da JBS de nenhuma forma. Nunca solicitei e nem recebi recursos de qualquer empresa em troca de favores. Tenho uma vida dedicada ao serviço público. Sou um homem de classe média, que vivo do meu salário”, afirmou o governador.

O ex-senador Vital do Rêgo não foi localizado na noite desta quinta-feira.

 

 

Fonte:http://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2017/07/operador-de-bendine-pagou-pmdb-para-garantir-unidade-pro-dilma-em-2014-diz-delator.html