Paciente relata pressão da Prevent por cuidados paliativos: ‘Aparelhos seriam desligados’

Tadeu Andrade, advogado de 65 anos, ficou internado em uma unidade da Prevent Senior e relatou ‘trama macabra’ vivida em hospital / Pedro França/Agência Senado

Com a voz embargada, Tadeu Frederico Andrade, de 65 anos, deu detalhes do que chamou de “trama macabra”, o período em que permaneceu internado com coronavírus em uma unidade da Prevent Senior. Aos senadores da CPI da Covid-19, o advogado relatou uma pressão de médicos da operadora de saúde para que ele fosse retirado da UTI e transferido para os cuidados paliativos, a fim de reduzir custos. De acordo com o depoimento, havia, inclusive, a orientação para que ele não fosse reanimado em caso de parada cardíaca. “Seria ministrado em mim uma bomba de morfina e todos os meus equipamentos de sobrevivência, na UTI, seriam desligados. Se eu tivesse parada cardíaca, havia a recomendação para não haver reanimação”, disse Andrade.

Em sua exposição inicial, Tadeu disse que se vê como uma “testemunha viva de uma política criminosa dessa corporação” e que falaria “em nome de muitas vítimas que hoje não têm mais voz”. “Minha família lutou contra a Prevent Senior. Lutaram para que eu não viesse a óbito”, resumiu. O advogado contou que recebeu medicamentos do “kit-Covid” após uma teleconsulta que durou dez minutos. Ele não duvidou da eficácia dos fármacos porque acreditou na prescrição de uma médica. “Não tinha do que reclamar, eu estava sendo tratado por uma médica”, seguiu. Com a piora do quadro de saúde, uma profissional da rede tentou convencer uma de suas filhas a submetê-lo aos tratamentos paliativos, com o que ela não concordou. Mesmo assim, a prática foi adotada.

“Uma das minhas filhas recebe um telefone comunicando que eu passaria a ter os cuidados paliativos. Ou seja: eu sairia da UTI, iria para um chamado leito híbrido e lá teria, segundo as palavras da doutura Daniela, maior dignidade e conforto, e meu óbito ocorreria em poucos dias. Seria ministrado em mim uma bomba de morfina e todos os meus equipamentos de sobrevivência, na UTI, seriam desligados. Inclusive, se eu tivesse parada cardíaca, havia a recomendação para não haver reanimação. Felizmente, minha filha não concordou por telefone. Isso se deu por volta do meio-dia, mas às 14h54 essa mesma doutora, Daniela, insere no meu prontuário o início dos tratamentos paliativos. Sem a autorização da família e recomenda que não se faça mais a hemodiálise, nao se ministre antibióticos e também não faça a manobra de ressuscitação”, relatou.

Diante da postura irredutível dos familiares do advogado, as duas filhas de Tadeu Andrade foram chamadas para uma reunião com três médicos da Prevent Senior. “Nessa reunião, eles tentam convencer minha família de que, pelo prontuário na mão, eu tinha marcapasso, eu tinha sérias comorbidades arteriais e que eu tinha uma idade muito avançada. Esse prontuário não era meu, era de uma senhora de 75 anos. Eu não tenho marcapasso. A única coisa que tenho é pressão alta. Sempre tive”, disse. Segundo o seu relato, a operadora de saúde só recuou porque sua família se insurgiu e ameaçou levar o caso à imprensa. Ao relembrar que quase morreu, Tadeu chorou. “Mas hoje estou aqui, vivo”. “Sua presença nessa comissão é emblemática. Não poderíamos terminar nossos trabalhos sem termos esse depoimento histórico que revela um momento macabro do enfrentamento à pandemia no Brasil”, disse o relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Jovem Pan

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