Sem receber, soldados que lutam contra Estado Islâmico fazem ‘bicos’

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Rawf Mahmoud, 30, soldado peshmerga, trabalha como taxista para complementar sua renda

Folha de São Paulo – A crise econômica no Governo Regional do Curdistão (KRG, na sigla em inglês), a área semiautônoma dos curdos no norte do Iraque, está levando os soldados peshmerga a arrumar novos empregos para complementar a renda.

O soldado Rawf Mahmoud, 30, normalmente ficava dez dias no front de batalha, descansava dez em casa e voltava a trabalhar. Agora, sai da linha de frente do conflito, vai para sua casa na cidade de Suleimani e assume o volante de um táxi. Trabalha das 7h às 19h, sem pausa.

Como soldado, ganha 500 mil dinares iraquianos por mês (cerca de R$ 1.600). Mas, no ano passado, ficou três meses sem receber. Neste ano, o salário de fevereiro só foi pago em 18 de março.

“Temos a missão de proteger nossa terra, então damos um jeito, arrumamos uns bicos”, diz Mahmoud, que tem dois filhos: uma menina de oito anos e um menino de quatro.

MOSSUL

Os peshmerga participam da ofensiva para a retomada de Mossul, a “capital” do EI no Iraque, ao lado do Exército iraquiano, que comanda a operação. Eles estão retomando vilarejos perto de Mossul, e a ofensiva deve durar meses. O EI tomou a cidade, a segunda maior do Iraque, em junho de 2014.

“Por causa da situação econômica, quase todos os soldados têm um segundo emprego”, admite Halgord Hikmet, porta-voz dos peshmergas. Os “bicos” não são autorizados, mas tolerados.

Após a derrubada do ditador Saddam Hussein, em 2003, a região curda passou por um boom econômico, com muito investimento estrangeiro. Mas, desde 2014, o governo central em Bagdá vem congelando ou atrasando os repasses para a região curda.

Para completar, o preço do petróleo, que responde por 90% das receitas do governo, desabou: em fevereiro de 2014, era US$ 103 o barril; agora, é cerca de US$ 35. Além disso, o governo está em plena guerra contra o EI e tem grandes despesas com armamentos e reconstrução.

Em fevereiro, soldados e funcionários públicos protestaram e bloquearam estradas em Sulaimaniyah por causa dos salários atrasados.

A mulher do capitão Mahmoud Jalal, 40, é funcionária pública e não recebe há quatro meses. Jalal, que também está sem receber, começou a trabalhar em uma padaria quando os salários começaram a atrasar, em 2014. Ele ganha 10 mil dinares por dia (cerca de R$ 36).

“Tenho três filhos em idade escolar, meu aluguel está três meses atrasado, e eu preciso pedir dinheiro emprestado”, diz Jalal.

Todos eles afirmam que não vão deixar as Forças Armadas. Eles pagam suas armas do próprio bolso. Para comprar os armamentos, fazem “vaquinha” entre os familiares e amigos ou descontam do salário todo mês.

“Enquanto não recebermos de Bagdá uma fatia maior do Orçamento, vai ser difícil resolver o problema”, diz o general Sirwan Barzani, comandante dos peshmerga no front de Makhmour.

Segundo ele, o país sofre também com o inchaço no setor público, herança do regime de Saddam Hussein. Cerca de 60% da população do Curdistão iraquiano é dependente do Orçamento público.